Epiléptico de David B., Final Cut de Charles Burns e outras quatro obras

A Darkside lança este mês nas livrarias seis obras em quadrinhos: a aclamada Epiléptico, de David B., que estreou no Brasil entre 2007 e 2008, em dois volumes, pela Conrad; Final Cut, nova obra de Charles Burns, o mesmo autor de Black Hole; Em Busca de Watership Down, de James Sturm & Joe Sutphin, obra vencedora do prêmio Eisner, adaptando o romance de Richard Adams; Lovecraft: Sr. Providence, de Daria Schmitt, uma homenagem a H.P. Lovecraft; e os mangás Violência & Paz + O Jovem com uma Government .45, de Shinobu Kaze, pseudônimo de Tomoaki Saito, e Gaia, a estreia do mangaká Asagi Yaenaga. Confira os detalhes:

Epiléptico

David B. nasceu como Pierre-François Beauchard em uma pequena cidade perto de Orléans, na França. Ele passou uma infância idílica brincando com as crianças da vizinhança e, com o irmão mais velho, Jean-Christophe, pirraçava com sua irmã mais nova, Florence. Porém, suas vidas mudaram abruptamente quando Jean-Christophe foi diagnosticado com epilepsia aos 11 anos de idade.

Em busca da cura, seus pais arrastavam a família para acupunturistas e terapeutas magnéticos, para médiuns e comunidades macrobióticas, para procedimentos médicos incômodos e tratamentos experimentais. Mas depois de cada novo tratamento vinha a decepção; após breves períodos de remissão, a saúde de Jean-Christophe apenas piorava.

A graphic novel Epiléptico reúne todos os seis volumes da obra aclamada internacionalmente, onde acompanhamos Pierre-François durante a infância, a adolescência e a vida adulta, ao mesmo tempo em que traçamos seu complicado relacionamento com o irmão e a batalha de Jean-Christophe contra a epilepsia. Irritado com o abandono do irmão e com todos os charlatães que lhes ofereciam falsas esperanças, Pierre-François aprendeu a lidar com a doença desenhando cenas de batalha fantasticamente elaboradas, criando imagens que proporcionam uma janela fascinante para sua vida interior.

Além de um retrato honesto e aterrorizante da doença, da dor e do medo, Epiléptico é, ao mesmo tempo, uma experiência literária e visual que explora os maiores medos e esperanças da condição humana enquanto entrelaça a formação de um artista com a história de sua família. Por meio de flashbacks, somos apresentados às histórias dos avós de Pierre-François e revivemos suas experiências nas duas guerras mundiais. “Os conflitos entre civilizações, países e pessoas sempre me interessaram”, explicou o autor, em entrevista à Folha de S.Paulo. “Quando crianças, fomos relegados por nossos amigos devido à doença do meu irmão, então sempre tentei entender por que as pessoas afastam outras.” Premiado como Melhor Roteiro no Festival de Angoulême e no Eisner como Melhor História em Quadrinhos Estrangeira, Epiléptico é tão surpreendente, íntimo e comovente quanto as melhores memórias literárias.

O uso intenso de contrastes entre preto e branco, juntamente com a iconografia fantástica, reforça o peso emocional e a intensidade da narrativa, tornando Epiléptico uma das graphic novels mais inovadoras e impactantes de seu tempo. Suas reflexões sobre a identidade, a solidariedade familiar e o impacto de uma doença devastadora ressoam de maneira universal.

Autoria: David B.
Publicação original:
Epileptic (L’Association, 1996-2003 / Fantagraphics, 2002 / Pantheon Books, 2005)
Estrutura: capa dura com 384 páginas
Data de lançamento: maio/2025

Final Cut

Capturado pelo reflexo distorcido na torradeira à sua frente, Brian Milner percebe que está desenhando um autorretrato. Na sala ao lado, a anos-luz de distância de seus pensamentos, seus amigos estão comemorando. A mente de Brian já cruzou o espaço para se perder em outro mundo, onde tudo é mais vivo, mais brilhante, quando uma sombra se aproxima por trás dele. Esse primeiro encontro com Laurie marca o início de uma nova história na qual ela desempenhará o papel principal.

Com uma narrativa construída em torno da relação entre o inconsciente e sua representação, a graphic novel Final Cut, do mestre Charles Burns, mostra o autor em seu ápice artístico. Através de sequências incríveis nas quais os sonhos se tornam uma fonte de inspiração para a ficção, Burns e Brian usam o lápis como uma ferramenta introspectiva que cria pontes entre a imaginação e a realidade, entre a estranheza de um surrealismo muito próprio e as agruras da juventude.

Quando criança, Brian e Jimmy faziam filmes de ficção científica em Super 8 no quintal de casa, convencendo os amigos a atuarem em suas produções toscas e caseiras inspiradas pelos melhores filmes B dos anos 1970. Agora um artista talentoso e aspirante a cineasta, Brian viaja com seu velho parceiro Jimmy e mais alguns amigos como Tina e Laurie – sua musa relutante – para um uma cabana remota na floresta munidos com uma velha câmera de 8 milímetros. O intuito é realizar seu primeiro longa terror e ficção científica, homenagem ao seu filme favorito, Invasores de Corpos, clássico baseado na obra do escritor Jack Finney. Porém, à medida que a afeição de Brian por Laurie parece não ser correspondida, ele delira e mergulha na fantasia em que ela é a garota de seus sonhos, a donzela em perigo e sua salvadora ao mesmo tempo.

Repleto de referências a filmes clássicos de ficção científica e de terror e com quadros e cenas impressionantes da natureza, do cinema e do surreal, Charles Burns borra a linha entre os sonhos de Brian e a realidade, a imaginação e a percepção para construir outra obra-prima, como nos melhores momentos de sua carreira, com destaque para o clássico Black Hole.

Com o mestre da arte em seu melhor momento, Final Cut é um olhar surpreendente sobre as angústias e os desejos juvenis, o amor e as dúvidas que ele traz e o que significa se expressar verdadeiramente por meio da arte. Charles Burns, genial ao abordar temas cada vez mais complexos, nos entrega uma história sublime que, como os melhores filmes, nos deixa com lembranças profundas muito depois de os créditos terem rolado.

Autoria: Charles Burns
Publicação original:
Final Cut (Pantheon Books, 2024)
Estrutura: capa dura com 224 páginas
Data de lançamento: maio/2025

Em Busca de Watership Down

Romance de estreia do britânico Richard Adams, Em Busca de Watership Down é uma história clássica de sobrevivência, esperança, coragem e amizade que há mais de cinquenta anos tem encantado e inspirado leitores em todo o mundo. Ambientada em Hampshire, no sul da Inglaterra, este adorável clássico apresenta um pequeno grupo de coelhos que, embora vivam em seu ambiente natural e selvagem, possuem sua própria cultura, linguagem, provérbios, poesia e mitologia.

No viveiro de Sandleford, Fiver, um coelho vidente, recebe uma visão assustadora da destruição iminente do lugar onde vivem. Ele e seu irmão Hazel não conseguem convencer o coelho chefe da necessidade de evacuação; eles então tentam convencer os demais, mas conseguem apenas nove seguidores.

Os coelhos então embarcam em uma perigosa jornada para encontrar Watership Down, o refúgio prometido nas visões de Fiver, e viajam por territórios repletos de perigos a serem enfrentados. Eles contam com a ajuda e o bom senso de Hazel e a engenhosidade de Blackberry e, ao longo do percurso, passam por diversas aventuras, seja na relação às vezes amigável, às vezes violenta com os fenômenos da natureza, uma série de animais predadores, humanos desatentos e até coelhos de outros viveiros.

“A mensagem do livro é simples, mas poderosa: o mundo pode ser um lugar perigoso e ninguém virá para salvá-lo. No entanto, a bondade, a coragem e a integridade são as principais características. É nelas que encontramos a esperança”, escreveu Madeline Miller na introdução da edição comemorativa do 50º aniversário deste clássico atemporal.

Com mais de 50 milhões de cópias vendidas em todo o mundo, traduzido para 25 idiomas e adaptada para o cinema e séries várias vezes desde então, Em Busca de Watership Down ganha agora esta adaptação para os quadrinhos com maestria pelo premiado roteirista James Sturm e maravilhosamente ilustrada pelo artista best-seller Joe Sutphin, e bênção das filhas de Adams.

“Li Em Busca de Watership Down para as minhas filhas, que ficaram tão envolvidas com a história quanto eu”, afirma o roteirista no posfácio do livro. “Também o coloquei na lista de leituras de uma turma de graduação do Center for Cartoon Studies. Tudo isso para dizer que quando surgiu uma oportunidade de adaptar este livro para quadrinhos com o ilustrador Joe Sutphin, aceitei sem hesitação.”

Esta espetacular graphic novel, vencedora dos prêmios Eisner e Ohio Book Award e finalista do prêmio Harvey, vai encantar os antigos fãs da obra e inspirar os novos, trazendo todo o poder e beleza da história de Em Busca de Watership Down para uma nova geração de leitores.

Autoria: James Sturm & Joe Sutphin
Publicação original:
Watership Down: The Graphic Novel (Ten Speed Press, 2023)
Estrutura: capa dura com 384 páginas
Data de lançamento: maio/2025

Lovecraft: Sr. Providence

Para o mundo, trata-se apenas de um parque comum. Para as crianças que o frequentam, é um ambiente agradável, com gramados, lagos, trilhas e bancos. Mas para o sr. Providence, o zelador do parque, é um lugar repleto de horrores que somente ele pode compreender.

Com humor peculiar e ilustrações deslumbrantes, Lovecraft: Sr. Providence, graphic novel de Daria Schmitt, nos faz mergulhar em um mundo de referências e assombros lovecraftianos, em uma homenagem visualmente exuberante ao criador do horror cósmico. O sr. Providence, observador dos portões entre os mundos, explora as profundezas dos sonhos e da loucura para revelar as possibilidades do extraordinário que se escondem logo abaixo da superfície do monótono e do comum, e nos convida a imaginar as possibilidades maravilhosas de nossas próprias vidas.

Uma pessoa solitária e excêntrica que passa os dias coletando itens perdidos espalhados pelo parque e os colocando em um carrinho de bebê, o sr. Providence e alter ego do autor acumula os itens recolhidos em uma pequena moradia repleta de lixo e povoada por um bando de gatos. Após o início de mais um dia rotineiro, ao se deparar com um cardume de peixes brigando por um livro, ele cai no lago e se vê em um mundo novo, estranho e aparentemente perigoso, repleto de cores e mistérios. Assim, o sr. Providence se encarrega de proteger os visitantes do parque contra essas criaturas sombrias, quer eles apreciem ou não.

A arte mescla ilustrações em preto e branco com cores vibrantes, e assim o colorido mundo interior de um homem se une ao seu monocromático exterior. “A visões mágicas, em preto e branco, e suas cores compostas como uma partitura musical, são poderosas”, afirma o quadrinista francês Philippe Druillet, no prefácio da obra, ressaltando esse aspecto da arte de Schmitt. “Tudo desenhado em um estilo sombrio, cambiante e perfeito”, completa ele.

A edição conta ainda com uma versão ilustrada do conto O Estranho Casarão nas Brumas, do próprio Lovecraft. Com desenhos esplendidamente detalhados e um enredo cheio de reviravoltas e referências, Lovecraft: Sr. Providence é uma variação sublime do mundo lovecraftiano, homenageando o imaginário do autor em todas as suas formas. Uma obra perfeita para amantes de quadrinhos e apreciadores da obra do mestre de Providence.

Autoria: Daria Schmitt
Publicação original:
Le bestiaire du crépuscule (Dupuis, 2022)
Estrutura: capa dura com 128 páginas
Data de lançamento: maio/2025

Violência & Paz +
O Jovem com uma Government .45

Alguns autores no universo do mangá transcendem o tempo, oferecendo reflexões que continuam a reverberar por gerações. Esse é o caso de Shinobu Kaze, cujo trabalho nos anos 1970 adentrou o universo cyberpunk, abordou questões ambientais, pressões da sociedade moderna e temas religiosos. Seu trabalho foi capaz de criar um elo entre arte, ficção científica, religião e filosofia, e sua visão criativa permanece atual.

Violência & Paz + O Jovem com uma Government .45 reúne nove histórias de Shinobu Kaze, criadas entre 1977 e 1986, que originalmente faziam parte de duas coleções: Violence & Peace e Government wo Motta Shonen, e utilizam o gekiga – o estilo dramático e realista do mangá – para provocar reflexões profundas sobre o corpo, o espírito, e o conflito entre o instinto humano e a ordem cósmica.

Mesmo em meio a cenas de crueldade e brutalidade, Violência & Paz + O Jovem com uma Government .45 preserva uma atmosfera sublime, imbuída de uma reflexão sobre as fronteiras entre o corpo, vulnerável a sofrimentos mundanos, e o espírito, dotado de potencial de se elevar e estabelecer sintonia com o cosmos.

O autor construiu um mundo único, inspirado por mestres como Tadanori Yokoo, Katsushika Hokusai, Philippe Druillet e Alphonse Mucha, além de Bruce Lee e Seijun Suzuki, e suas criações são verdadeira expressão de seu próprio mundo interior, que se desdobra por meio da meditação e estado de introspecção profunda.

Em suas obras, Kaze ecoa a sabedoria dos antigos, reforçando a ideia de que as mudanças começam dentro de nós, mesmo que isso exija nadar contra a corrente. Suas narrativas seguem nos inspirando e incitando a cuidar dos nossos alicerces, a reconectar com a natureza e a enviar ao universo vibrações mais ordenadas, alinhadas com a essência do que significa ser humano.

Autoria: Shinobu Kaze
Publicação original:
Violence & Peace / Government wo Motta Shonen (Asahi Sonorama, 1977 a 1986)
Estrutura: capa dura com 288 páginas
Data de lançamento: maio/2025

Gaia

Em um lugar em que o conceito de tempo e as leis da natureza deixaram de existir, uma jovem desperta de um longo sono e parte em uma jornada em busca do significado da sua existência. Dotada de poderes especiais e orientadas pelos sentidos, ela e as companheiras precisam trilhar um caminho até a Terra de Origem, onde esperam descobrir respostas para suas dúvidas e o verdadeiro propósito de suas vidas.

Tem início então uma batalha sangrenta entre a esperança e o desespero e, diante das mais inesperadas ameaças, a resistência de muitas almas se torna essencial para seguirem adiante. Haverá felicidade ao fim desse percurso?

Este é o ponto essencial de Gaia , a primeira obra de Asagi Yaenaga, uma estreia marcante para o mangaká japonês, que desde a infância tinha predileção por filmes e mangás de horror, admirando obras de autores como Shigeru Mizuki e Kenji Tsuruta,. Em seu processo criativo, Yaenaga valeu-se de influências de técnicas de desenho usadas por Junji Ito e Suehiro Maruo para acentuar o estado emocional dos personagens e a atmosfera de horror.

A obra traz uma visão singular sobre o equilíbrio da vida e da natureza, inspirada na teoria da autorregulação da Mãe Terra, conceito conhecido como a Hipótese de Gaia. Com uma narrativa subjetiva e repleta de horror surrealista, o autor convida o leitor a refletir sobre a relação entre a humanidade e o planeta, e nos lembra de que a Natureza sempre cobra um preço por toda a destruição ocasionada nos últimos séculos.

Em tempos tão desafiadores como os atuais, a obra encontra ressonância com a crescente preocupação a respeito da preservação da Terra, condição essencial de nossa própria existência. Ao tocar na ferida de uma humanidade que de forma contínua e crescente destrói seu próprio ambiente de vida, Gaia serve como um alerta da necessidade de transformação, e reflete que, quando atacamos o grande organismo que nos abriga e permite nossa existência, estamos atacando a nós mesmos e a todos os seres vivos que habitam o planeta. Haverá esperança ou apenas desespero? Somente sua própria alma sabe a resposta.

Autoria: Asagi Yaenaga
Publicação original: Gaia (Hollow Press, 2022)
Estrutura: capa dura com 64 páginas
Data de lançamento: maio/2025

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