De Charles Burns: El Borbah

A Darkside Books acaba de lançar El Borbah, obra escrita e ilustrada por Charles Burns, lançada originalmente nos Estados Unidos pela Fantagraphics. Aproveitando o lançamento, selecionamos outras duas importantes obras do autor também lançadas pela Darkside. Confira os detalhes:

dez/2020 El Borbah – Com mais de 180 quilos e o conhecido figurino dos lutadores mexicanos de luta livre, com meia-calças e misteriosas máscaras, El Borbah é tudo aquilo que não esperamos de um detetive particular. Movido a junkie food e canecos e mais canecos de cerveja, ele conduz suas investigações com papo reto e temperamento explosivo, quebrando portas e crânios, enquanto espreita a cidade decadente, repleta de punks, freaks, malucos de ternos e cientistas loucos. Um dos primeiros personagens criados por Charles Burns, ainda no início do anos 1980, as histórias desse improvável detetive permanecem assustadoramente contemporâneas, com a estética “sci-fi-noir”, alimentada pelo consumo voraz de filmes B e quadrinhos de terror dos anos 1950 e 1960 na infância do autor, e um sofisticado senso de humor tão inquietante quanto engraçado – algo que já vimos em outros clássicos trabalhos seus, como na obra-prima Black Hole e na coletânea Big Baby. El Borbah reúne cinco histórias, três delas publicadas ainda nos anos 1980 pelas revistas RAW, de Art Spiegelman (autor de Maus) e Françoise Molly, e a consagrada Heavy Metal. E outras duas narrativas inéditas, reunidas em livro pela RAW/Pantheon Books em 1988 com o título Hard-Boiled Defective Stories. A edição brasileira é baseada no livro publicado pela Fantagraphics em 1999, acrescido de um epílogo inédito do autor com imagens raras, esboços e capas publicadas em outros países. “Amor Robô” apresenta o detetive e o insere neste mundo que começa a ser comandado pelas máquinas, isso ainda em 1982. Em “Carne Morta”, enquanto investiga o desaparecimento de uma mulher, ele se depara com uma peculiar empresa de processamento de carne. “Vivendo na Era do Gelo” apresenta as bizarrices em um mundo em que a criogenia virou lugar comum. E ainda temos histórias sobre uma seita nada convencional e sobre um pai preocupado com o filho perseguido. Em todas elas, o universo peculiar e esquisito, com pessoas clonadas, clubes para ricos pervertidos, megalomaníacos que planejam dominar o mundo se aliam ao traço e ao preto e branco magistral do autor para narrar histórias que retratam como poucas os sombrios anos 1980 – mas, de maneira espantosa, falam também sobre o não menos tenebroso século XXI. Chegou a hora de conhecer as origens da mente prodigiosa e sombria de um dos monstros do quadrinho mundial. Capa dura com 128 páginas.

abr/2019 Big Baby – Do criador do clássico Black Hole, outra obra-prima do horror moderno nos quadrinhos do mestre Charles Burns. Big Baby reúne quatro histórias do personagem título, apelido de Tony Delmonte, um fã dos clássicos quadrinhos de terror, revistinhas pulp e filmes B e um típico jovem dos subúrbios norte-americanos dos anos 1980. As quatro histórias – escritas e desenhadas entre 1983 e 1992 e publicadas na revista RAW, de Art Spiegelman (autor de Maus) e Françoise Molly, em jornais semanais de forma serializada e mais tarde em livro pela Kitchen Sink Press – foram reunidas pela primeira vez em livro pela editora norte-americana Fantagraphics em 1999 e, finalmente, chegam ao Brasil. Em “A Maldição dos Toupeiros”, Big Baby e sua curiosidade infantil são o ponto de partida para uma história que envolve um marido desconfiado de sua fiel esposa e homens toupeira que mantêm pessoas em cativeiro em uma prisão subterrânea no quintal do vizinho. “Peste Juvenil” poder ser lido como preâmbulo a Black Hole e seus jovens infectados, em um mundo às voltas com possíveis seres bizarros e alienígenas. “Clube de Sangue” se passa em um acampamento de verão, cenário perfeito e usual para histórias de fantasma e intrigas entre os adolescentes que precisam provar estarem aptos a entrarem para o clube. Como em seus melhores momentos, Burns investiga os dramas, as dores e as delícias do amadurecimento e da aceitação em um dos períodos mais conturbados na vida de qualquer pessoa. A precisão cirúrgica do traço de Burns acrescenta uma frieza sinistra ao seu peculiar senso de humor. Junto à sua ligação afetiva com a cultura do horror em voga nos anos 1950 e 1960, algo constante em sua obra, produz em Big Baby mais uma narrativa brilhante que captura de maneira magistral o desconforto e o medo da adolescência no final do século XX. Capa dura com 112 páginas.

out/2017 Black Hole – Vencedor do Eisner Award de Melhor Álbum de 2006 e de nada menos que nove Harvey Awards e outros dois Ignatz Awards, além do prêmio Les Essentiels d’Angoulême (2007), Black Hole é a mais importante graphic novel de Charles Burns. Publicada de forma seriada durante uma década, foi reunida em 2005 para aclamação mundial e reforçou o lugar do artista como o mestre dos quadrinhos independentes de horror. O obstinado terror existencialista da obra de Burns é composto apenas pelo trabalho em pincel, de alto contraste em preto e branco, que presta homenagem ao horror sutil dos primeiros filmes do gênero, e desde cedo se tornou um dos estilos mais reconhecidos de toda a arte sequencial contemporânea, instantaneamente familiar assim que é visto em alguma antologia ou na capa de revistas como New Yorker e The Believer. Black Hole se passa nos arredores de Seattle, extremo noroeste dos Estados Unidos, em meados da década de 1970, quando uma praga inominável e traiçoeira se alastra entre os adolescentes locais através do contato sexual e parece não poupar ninguém. Ela se manifesta de maneira diferente em cada um dos infectados – enquanto alguns apresentam apenas manchas na pele, algo sutil e fácil de ocultar, outros se transformam em grotescas aberrações, vagas lembranças do que foram um dia. E uma vez que você foi contaminado, não há mais volta. Para estes seres monstruosos, não há alternativa além do autoexílio em acampamentos precários, na floresta que circunda a região. Conforme vamos nos familiarizando com os diversos protagonistas da história – garotos e garotas que foram infectados, outros que não foram e aqueles que estão prestes a ser -, o clima de horror, delírio e insanidade toma conta dos adolescentes. Black Hole apresenta um retrato soberbo e inquietante da alienação dos tempos colegiais, repleto de selvageria e crueldade e hormônios à flor da pele, que dialogam com a angústia, o tédio e as necessidades mais profundas de nossa própria aceitação que dominam essa época da vida. Hipnótico e aterrador, a graphic novel que consagrou Charles Burns transcende seu gênero ao explorar com habilidade um momento cultural específico americano, quando não era mais bacana ser hippie, e David Bowie ainda era um pouco estranho para estes jovens, a liberdade sexual começava a se transformar em um pesadelo e a vida adulta cobrava o seu preço pelos traumas reais da infância – traumas da perda e da sensação de absurdo existencial. Isso sem falar de chifres brotando, rabos aparecendo, fendas se abrindo e alterando sua epiderme para sempre… Capa dura com 380 páginas.

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